Falo de força, não de flores

Como muitos sabem o dia 8 de março é o Dia Internacional da Mulher e, ao contrário do que os comerciais pregam, o dia de hoje não é somente mais uma data comercial – dia para dar presente para a mãe, um bombom para a namorada ou entregar flores para as mulheres. Nesse dia 8 de março, não queremos apenas os parabéns, queremos ver mais reflexão, mais respeito e, acima de tudo, mais igualdade. Hoje é mais um dia para lutarmos pelos nossos direitos: políticos e de expressão. É dia de nos libertar da violência e de tudo que ainda nos prende.

Desde o início do século XX as mulheres se unem em busca dos seus direitos, sobretudo trabalhistas. O episódio do incêndio na fábrica de Nova York (25/03/1911) somado a greve de trabalhadoras do setor de tecelagem durante a revolução russa (8/03/1917) entre outras manifestações feministas, fizeram com que o dia 8 de março se tornasse aos poucos o principal dia para homenagear as mulheres.

Muitos anos se passaram, muitas revoluções e evoluções aconteceram, mas a igualdade de gêneros ainda está longe de ser alcançada. Pensando nos porquês e sempre em busca de alternativas, resolvi organizar o pensamento em uma lista de 5 problemáticas que considero importantes pra refletirmos juntos não só hoje mas sempre.

  • Equidade salarial: Hoje os homens ainda são a maioria dos empregados no Brasil e a diferença salarial ainda existe. Alguns fatores baseados em como a nossa sociedade é estruturada ajudam a explicar essa diferença. Por conta do machismo algumas mulheres tendem a se concentrar em ocupações que remuneram menos por serem muitas vezes educadas a terem menos expectativas em relação a sua vida profissional. Além disso, elas são muitas vezes obrigadas a interromper a carreira com mais frequência e sofrem preconceito por terem que lidar com questões como a licença maternidade. Estudos indicam que essa diferença salarial é menor em países onde os homens dividem os afazeres domésticos com as mulheres. Nesses lugares, os filhos e o cuidar da casa não tem tanto impacto na vida das mulheres pois as tarefas são responsabilidade igualmente divididas entre o homem e a mulher e o fato dos dois mudarem suas rotinas igualmente com o nascimento de um filho não permite que isso interfira somente na carreira profissional da mulher – lembrando sempre que a única tarefa da maternidade que é exclusividade da mulher é o gerar e o amamentar, todas as outras tarefas podem e devem ser divididas com o pai que é igualmente responsável pelos cuidados da criança.
  • Fragilidade: em muitos momentos aprendemos que para sermos femininas devemos ser delicadas. Mas até que ponto essa delicadeza não nos remete a fraqueza? Por muitos anos a mulher foi – e em algumas culturas ainda é – considerada propriedade do homem, seja na figura do pai ou do marido, mas sempre subjulgada aos cuidados de um homem pra que então pudesse se considerar protegida de tudo e de todos. Em muitos filmes são elas que amam, são elas que se entregam, que se submetem, são elas que sofrem. É preciso lutar para que o ser feminino seja valorizado e fortalecido. É preciso que uma mulher não tenha necessidade de emular comportamentos masculinos pra que seja considerada forte. É importante que a feminilidade não seja imediatamente ligada a fraqueza e fragilidade e sim esteja aberta a todas as múltiplas possibilidades e especificidades que cada mulher pode oferecer.
  • Rivalidade entre as mulheres: desde que o mundo é mundo no entretenimento e nas telenovelas, mulheres são colocadas umas contra as outras em uma disputa por beleza, carisma, talentos e, principalmente, por homens. A cultura de massa que impõe o “beijinho no ombro”, que transforma a outra em “recalcada”, em “inimiga”, em “falsiane” provoca a desunião das mulheres por algo banal e sem sentido. Enquanto isso os homens são estimulados a tratar seus iguais como “parças”, “irmão”, tudo na maior “brodagem”. Acredite, a vida da mulher também pode e deve ser assim. Fica muito mais fácil quando admiramos aquela que está ao nosso lado e nos colocamos a disposição para enfrentarmos juntas as dificuldades de ser mulher.
  • Ditadura da beleza: a mulher foi criada para ser perfeita aos olhos dos homens e da sociedade. Espinhas? Secativo. Rugas? Cremes anti idade. Celulite? Drenagem. É baixa? Salto. Gorduras? Boca fechada e academia agora! Por todos os lados somos cobradas pela perfeição e por nos encaixarmos num padrão. Já parou para se perguntar se você realmente se incomoda com aquelas gordurinhas na lateral da sua barriga ou se é a TV, a revista ou até mesmo o seu próprio marido que te obriga a ter um corpo “ideal”? Ser vaidosa não é tentar corrigir tudo que encontra de “errado” em você. Se amar é se aceitar, respeitar a sua própria natureza e ser do jeito que você escolher ser.
  • Objetificação da mulher: ainda vemos em propagandas, programas de humor e no entretenimento em geral muitas maneiras ofensivas de tratar a mulher. Em alguns momentos elas são colocadas como objeto de desejo e tendo a sua inteligência subestimada por apresentadores que usam e abusam das suas marionetes de palco. Nos filmes e séries elas também são muitas vezes retratadas como perigosas – elas usam o seu poder de sedução para enganar, persuadir e dissimular. A sexualização do corpo feminino em prol da satisfação do homem contribui para que alguns sintam a liberdade de praticar assédios por acharem nossos corpos “convidativos”. A violência contra a mulher é diária, 50% dos assassinatos de mulheres no Brasil, envolvem violência doméstica pela descriminação da mulher.

Que o dia de hoje seja sim de celebração de todas as lutas já vencidas, mas que a gente nunca perca de vista tudo que ainda precisamos conquistar. Que o nosso presente venha em forma de atenção, seja embrulhado de consciência e que os chocolates tenham gostinho de respeito. Esse dia é muito mais sobre força do que sobre flores. Feliz dia das mulheres.

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